O que o ChatGPT realmente provou (1 / 5)
70 anos da IA | Post 1 de 5
O lançamento do ChatGPT em 2022 colocou a "Inteligência Artificial" no centro do debate público. Ninguém duvida disso.
Mas como uma tecnologia que já completa 70 anos ainda provoca tamanho impacto socioeconômico e político? E como um dos maiores mal-entendidos da área pode abrir espaço justamente para o Brasil? É o que pretendo abordar nesta série.
Em 1950, Alan Turing (que pouco antes tinha criado a própria Computação) propôs um teste simples: coloque um humano para conversar, por texto, com outro humano e com uma máquina. Se ele não conseguir distinguir quem é quem, a máquina venceu e pode ser considerada "inteligente".
Na prática, o Teste de Turing define inteligência como a habilidade de imitar um ser humano. Publicado no artigo "Máquinas de Calcular e Inteligência", ele é a peça fundamental que leva ao surgimento formal da Inteligência Artificial em 1956.
Imitar habilidades humanas, aliás, nunca foi novidade na área. Os primeiros "computadores" eram os profissionais que faziam cálculos de cabeça; com Turing, o termo passou a designar as máquinas capazes do mesmo.
Em 1966, o ELIZA se tornou o primeiro programa a simular diálogo em linguagem natural. Em 1997, o Deep Blue se tornou a primeira máquina a vencer o campeão mundial de xadrez em exercício. Em ambos os casos, o mundo ficou igualmente atônito.
Nas últimas duas décadas, algoritmos de recomendação se tornaram o coração das redes sociais. Somados a algoritmos de otimização e reconhecimento de padrões, eles sustentam impérios trilionários mundo afora.
Ou seja: em 2022, o ChatGPT não inventou a inteligência artificial, tampouco gerou um avanço tecnológico inédito. Ele apenas aplicou uma tecnologia de 2017 e, com isso, expôs a humanidade a uma máquina realmente capaz de vencer o Teste de Turing. Isso, sim, era inédito.
Entre todas as habilidades sobre-humanas que a IA já oferecia desde sua concepção, essa foi a primeira vez que uma máquina simulou uma habilidade intrinsecamente humana. E isso bastou para alimentar a ambição de substituir a força de trabalho humana por automações.
Hoje, enquanto se propaga a percepção de que tudo se resumiu a um mal-entendido, vários trilhões de dólares e uma inacreditável engenharia financeira estão ameaçados. Os mercados já se preparam para um possível colapso. A pesquisa séria em IA, por outro lado, continua a todo vapor.
No próximo post, mostro exatamente como esse mal-entendido virou combustível para uma das engenharias financeiras mais ousadas do mercado de tecnologia.